terça-feira, 2 de março de 2010

apresentação

Sem esquecer da lição de grandes mestres do haicai como Bashô e Buson e, ao mesmo tempo, fiel às conquistas estéticas de poetas contemporâneos como Paulo Leminski e Albano Martins, o poeta Bernardo Souto, no livro elogio do silêncio, revisita o micropoema japonês dentro de um espírito de renovação, alcançando em seus haicais o difícil amálgama entre tradição e modernidade.

*Bernardo Souto nasceu em Recife-PE no princípio da década de 1980. É bacharel em Crítica Literária pela Universidade Federal de Pernambuco e mestre em Literatura e Cultura: Estudos Comparados pela Universidade Federal da Paraíba. Publicou poemas em revistas literárias como Zunái e Caqui.





p.s: O livro já se encontra disponível na Livraria Cultura.




http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/index.asp?sid=87336514912310573938547739&k5=87C3D3C&uid=


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

alguns poemas


metafísica das borboletas
serão almas
das flores de outrora?
(Bernardo Souto, p. 68)
***






manhã de neblina
agora é branco
o verde da colina
(Bernardo Souto, p.27)
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gotas d'água
na lâmina do lago
flores de cristal

(Bernardo Souto, p.43)
***





leve desliza
a folha no lago
barco de formigas
(Bernardo Souto, p.33)

sobre o livro I

"Para Valéry, a poesia funda-se em um movimento pendular: permanente oscilação entre o som e o sentido. Em sua tessitura sonora, dizemos que os haicais de Bernardo Souto se aproximam, em certa medida, aos de José Juan Tablada, poeta mexicano merecidamente reabilitado por Octavio Paz. Em ambos encontramos o entrelace de versos livres curtíssimos, por vezes rimados, e versos metrificados. O autor de elogio do silêncio, antiparnasiano por opção estética - assim como Tablada - recusa-se a enxertar em seus versos palavras a golpes de martelo. Bernardo Souto só opta pelo verso metrificado quando esse soa inteiramente sem artifícios, buscando uma música que se aproxima bastante de um ritmo espontâneo, sem abdicar de uma meticulosa elaboração do tecido sonoro.

Como em uma unidade diversa, os haicais de Tablada se aproximam mais das técnicas da pintura, onde as palavras através do jogo de similaridades, de viés metafórico, tingem o verso em ouro, expandindo-se em amarelo solar: peixes voadores/ao golpe de ouro solar/estala em estilhaços o vidro do mar. Bernardo Souto atinge a intensidade dessa imensa beleza plástica através do jogo de imagens em recorte metonímico: gotas d´água/na lâmina do lago/flores de cristal. Vemos que nessa peça os dois primeiros versos geram um terceiro sentido por contiguidade, de modo diferente de Tablada cujo terceiro verso é um continuum dos dois primeiros. A fotogenia do haicai de Souto traduz a fotografia do instante em que gotas e lâminas geram, em justaposição e colisão de imagens, um terceiro sentido: flores de cristal. Desse modo, lembra-nos o princípio da montagem cinematográfica enquanto conflito e colisão de Eisenstein. Este, em um ensaio intitulado O Princípio Cinematográfico e o Ideograma, que integra o livro A Forma do Filme, compreende a criação por imagens do haicai como um exercício metonímico de laconismo executado através do uso de frases de montagem e séries de tomadas muito semelhantes àquelas empregadas por ele próprio em sua linguagem fílmica. É precisamente esse o processo que predomina na poética singular de Bernardo Souto e em alguns dos autores presentes na terceira parte do seu livro, intitulada lira japonesa, na qual o autor pernambucano recria - com muita beleza - mestres do haicai como Moritake, Buson, Shiki e Bôsha.

À maneira de Tablada ou de Souto, pela metáfora ou metonímia, usando ou não a rima tradicional, que seja o verso, à la Verlaine, a coisa que voa, o modo infinito de alçar uma dimensão verbivocovisual na tradução do ser e das coisas do mundo".

Jacineide Travassos

sobre o livro II

"A palavra-chave da experiência poética de Bernardo Souto, em elogio do silêncio, é instantaneidade. Instantânea – tal o relâmpago – é a palavra dos seus haikais.

Capturar a imagem das coisas, sabendo-as breves, num exercício de espontaneidade, além do viés racional, é o segredo dessa poética instantânea, que tão bem se exprime nestes versos: 'xadrez a três/ o sopro do vento/ derruba os reis'. Ou nestes outros: 'leve desliza/ a folha no lago/ barco de formigas'.

Por isso o poeta Bernardo Souto, já no denso ensaio que abre o seu elogio do silêncio, faz do grão de areia, do vagalume e do relâmpago as imagens mais aproximadas desse espanto de origem de que se reveste toda poesia. A concepção de Novalis da 'poesia como religião da humanidade' não se distingue daquilo que, em sua subitaneidade, o Zen concebe como satori. Nem o satori do silêncio originário em que se encontram mergulhadas todas as coisas".

Ângelo Monteiro


sobre o livro III

"Uma pequena tempestade ruge na retina do poeta. O lago dos seus olhos é iluminado pelo relâmpago do satori. Antes de ser uma experiência estética, escrever haicais significa não ter significados. É a arte de esvaziar-se, metamorfosear-se, para enfim tocar a página em branco com a quietude de um sopro: 'leve desliza/ a folha no lago/ pequeno barco/ movido a brisa'. Bernardo Souto, o criador de haicais, passa a ser demiurgo no ínfimo instante da escrita. Antes disso, ele é o que não escreve, sendo o-que-é-escrito-pelo-silêncio".

Leo Zadi